terça-feira, 14 de julho de 2015

Crônica

Particular


Primeiramente vamos entender a definição de particular, que leva como conceito algo que pertence a certas pessoas ou coisas, individual, privado, um adjetivo que transforma qualquer um em objeto ou fato de posse única, adjetivo e pronome possessivo ligados inseparavelmente.

Todos são aplacados por essa curiosidade desesperada em saber da vida alheia, o que o outro fez, o que comeu, com quem brigou. A curiosidade é uma parte essencial do ser humano, como jornalista não vou reclamar ou suprimir essa vontade que me consome em desvendar a privacidade alheia. Mas não há com o que me preocupar, não é preciso me esforçar para satisfazer a paranóia de concluir porque talvez você esteja com uma cara tão inquieta, porque no final você é como eu que lê um texto, mesmo com o título Particular, sabendo que seria algo secreto ou privado.

Assim as pessoas seguem todos os dias, principalmente no trem, onde não há segredos ou limites da exposição cotidiana, dessa forma, descubro tudo sobre todos, inclusive sobre Mariana, uma jovem de longos cabelos pretos, alta, com uma pele tão bem cuidada que só pode ser de uma classe social mais alta e suas unhas tão bem feitas, que pressupus ter acabado de sair do salão de beleza.

Sentada na janela, ela via estação após estação passar, levando sua vida e juventude sem causar nenhuma intensidade. Apesar do colorido em suas roupas, seus olhos mostravam um nude sem igual. E então, quem a iria compreender senão eu, alguém que vê tantos casos diferentes todos os dias. Propus-me a observá-la e descobrir o que incomodava sua mente, então se iniciou uma tensa e difícil investigação sobre os aspectos que Mariana deixava escapar, como se pedisse a alguém que a perguntasse o que realmente estava acontecendo. 



Na contínua busca pelo motivo, me perdi algumas vezes em meio a outros casos, lamentando muito pelo marido perdido e contente em saber que a filha de alguém passou no vestibular. Por um momento, desconcentrei-me, confusa com todas aquelas vidas e quando voltei imediatamente à Mariana, com medo de ter deixado passar algo que pudesse me ajudar na minha procura, percebi-a intacta, no mesmo lugar, como se nem respirasse, fazendo parte daquele grande pedaço de metal que corre sempre para o mesmo lugar.

Então vi Mariana se mexer, apresentou seu primeiro sinal de vida, como se tivesse acabado de nascer, mas logo, como um óbito prematuro, acabou-se qualquer manifestação de vida que a pudesse fazer sair do transe em que se encontrava. Finalmente, o metrô chegou ao seu final e Mariana também, ao abrir as portas na estação, ela se esforçou e conseguiu sair indo em direção ao outro lado da plataforma. Tentei entender o que faria uma pessoa chegar ao ponto final para voltar ao outro lado da linha, mas o que eu não havia entendido é que Mariana não queria voltar, ela simplesmente quis permanecer ali e assim ao ver o trem em alta velocidade, apitando como se estivesse lhe fazendo um convite, vi seu único propósito ao se jogar nos trilhos que a receberam como se entendessem sua angústia. Por fim, compreendi Mariana.